Apresentação

UMA PROBLEMÁTICA TRANSDISCIPLINAR

Cada indivíduo se vê hoje incitado ou ao menos constrangido – concretamente, tendo-se em conta as condições de desigualdade e da violência do mundo contemporâneo, em práticas – a se mostrar, a ser arrogante, todo poderoso, a ignorar o limite, a ideia de limite: a arrogância é considerada como inevitável ou normal tornando-se quase um valor. A arrogância é um termo que cresceu com o individualismo contemporâneo, com aquilo que denominamos de narcisismo de sociedades individualistas e no presente o neoliberalismo. A arrogância concerne o indivíduo, a sociedade, a política e revela-se em todos os domínios, de maneira privilegiada na esfera cultural, econômica e financeira: ela induz a radicalização de posições, ela acentua as relações de força nas sociedades nas quais o indivíduo é ao mesmo tempo individualizado e massificado, reduzido a uma identidade que não lhe convém. Pouco elucidada e explicada a arrogância se vê combatida pela moral, pela ética, por meio da invocação do respeito, da dignidade a todo indivíduo. Pois o inverso aparente dessa atitude de arrogância é a contenção  – la retenue – que parece testemunhar uma capacidade – uma vontade aparente senão real –  de resistir às formas insidiosas de dominação, ou mesmo de recusar a oposição sem dúvida muito esquemática entre dominantes (frequentemente arrogantes) e dominados (usualmente reduzidos a sofrer passivamente essas manifestações de arrogância).

Questionar a arrogância, tanto no domino político como no social ou cultural, para repensar as relações sociais e as relações de poder, as formas de interação social que são o fundamento de modelos de condutas e de valores contemporâneos dominantes. Trata-se de analisar os contextos  – como as condutas – que tornam possível, favorizam a expressão e o desenvolvimento de comportamentos de arrogância. A arrogância está ligada aos modelos de comportamento, ela se traduz nesses modelos pela força, pelo poder. No presente ela está  ligada  à aceleração das tecnologias contemporâneas, aos ideólogos e aos processos identitários, ao ilimitado das sociedades de massa narcísicas, o que significa que ela se reveste de outras formas diferentes das da arrogância de sociedades do passado,- mas ela pode perfeitamente conservar traços, seja das sociedades do Antigo regime, da feudalidade, da sociedade de corte ou de maneira mais geral das sociedades tribais ou clânicas das sociedades tradicionais.

Termo do Antigo Regime que caracteriza os comportamentos da Aristocracia, a arrogância que é contrária ao espírito da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão perdurou na democracia: o indivíduo arrogante busca a propriedade do outro, ele não reconhece a equivalência entre a propriedade de si, nem a propriedade de si do outro. A arrogância é um qualitativo  que  está  no coração do histórico e da política e o ultrapassa. Ela permite descrever e elucidar atitudes, condutas psicológicas e sociais, participa de relações instáveis de poder, de dominação, a arrogância é um comportamento verbal ou não verbal, físico ou psíquico, exterior ou interior, que descreve o fato de se arrogar “bens” ou “pessoas”. Dar prova de arrogância é afirmar ou melhor ainda reivindicar uma superioridade que   por intermediação do comportamento, de condutas, termina em encorajar o indivíduo a se imbuir de sua pessoa para “se arrogar” uma posição dominante  – e de nela se manter – de ir muito além em uma sociedade de concorrência e de competição. A partir dos últimos trinta anos com o declínio ou a transformação das formas e das maneiras, da ascensão do informal e em consequencia do insignificante que foram assinalados por  Cornelius Castoriadis (seguindo Alexis de Tocqueville), e abordados no início dos anos 1980 por Christopher Lasch em sua cultura do narcisismo,   assistimos à uma valorização da arrogância que reveste diferentes formas e que produz efeitos devastadores.

A arrogância induz novas formas que não se restringem a alienação, a servidão, mas são também formas insidiosas de autoridade: o autoritarismo através das redes, a camaradagem, os favores. Essas formas de autoridade se desenvolvem em processos paradoxais de transparência no qual a  visibilidade é quase uma obrigação e responde a uma injunção à visibilidade para existir profissionalmente e socialmente. As tecnologias prolongam e intensificam a noção de  biopolítica que Michel Foucault formulou. O progressivo recurso aos números e as estatísticas, à quantificação da vida e da morte instaura a arrogância do governo, da política. A arrogância aparece sendo um instrumento do governo quando os homens no poder conduzem uma política que tende a tornar invisível e inaudível a maior parte dos homens do planeta. Seguindo esse raciocínio não haveria mais uma condição humana, mas grupos e milhões de pessoas cujas existências figuram apenas nas estatísticas mundiais e que não são tidas como indivíduos que possuem um corpo que lhes pertence. As tecnologias e a biopolítica alimentam o desenvolvimento de um neoliberalismo que promove através de formas de concorrência ilimitadas sociedades de sobreviventes.

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